quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Memórias no corpo – meus anos escolares
Alexandre Fernandez Vaz

Fui institucionalizado muito cedo no sistema educacional, pelo menos se for considerada a época e o lugar em que isso aconteceu, a Florianópolis do início dos anos 1970. Com quatro anos comecei a frequentar o que se chamava Jardim de Infância, para um ano depois ser promovido ao Pré-primário. As recordações do período são algo difusas, mas vários episódios permanecem na memória (como lhes é possível, por certo, nessa negociação entre lembrar, esquecer, imaginar, que é o trabalho mnemônico).

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

A Champions LiGay e a colonização do futebol
Wagner Xavier de Camargo


O feriado de finados foi marcado, na cidade de São Paulo, pela realização da 3ª Champions LiGay, um campeonato amador de futebol society ou fut7, jogado em grama sintética e organizado para atletas que se autoidentificam com a homossexualidade enquanto orientação sexual. Como ficou registrado na página da LiGay Nacional de Futebol (LGNF), no Facebook: “Sim, passou a Parada, passaram as eleições e nós continuaremos aqui, unidos, fortes e mostrando que, no ‘país do futebol’, gay também joga bola e que esporte é coisa de viado sim, que é coisa de lésbica, de bi, de trans, de travesti, de queer, de quem mais quiser!” (sic).

domingo, 11 de novembro de 2018

Futebol, narrativas, assepsia: Brasil, Argentina
Alexandre Fernandez Vaz

Os brasileiros amantes do futebol não têm como não se impactar com a dinâmica da imprensa esportiva argentina. Do outro lado da fronteira o trato é muito mais caliente do que por aqui. Abre-se Ole, diário esportivo, e lá estão os chistes, os comentários sem meias-palavras, jogadores e treinadores tratados pela intimidade dos apelidos. Por exemplo, Marcelo para o público em geral, Gallardo para os brasileiros, El Muñeco para a imprensa e para os torcedores millionarios. Os personagens do futebol costumam falar de seu time e dos adversários sem censura. Mesmo a revista El Gráfico, mensal e mais comedida, não fica muito atrás. Lembro-me de há anos ler em suas páginas uma entrevista com Ramón Diaz, então treinador do River Plate, onde fora destaque também como jogador, em que ele se referia ao Boca Juniors, o grande adversário, como Bosteros, epíteto para lá de pejorativo destinado ao estádio La Bombonera, a casa do xeneizes no bairro portuário de La Boca.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Uma escola para a autonomia, para a boa vida
A exemplo de um episódio de educação sexual

Alexandre Fernandez Vaz


Não é fácil dizer que nos últimos dias uma notícia chamou a atenção. Afinal, é só abrir um bom portal de notícias e lembrar da importância da meditação, de manter a calma, do avanço das pesquisas farmacológicas. Como se sabe, em momentos de crise medo e pânico não são bons conselheiros. Não deixar de se impactar pode, no entanto, ser uma maneira de manter o pensamento e a crítica ativos.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Pensamento, regressão: crítica e autocrítica educacional em tempos cheios de esquinas

Alexandre Fernandez Vaz

O fim do período eleitoral dissolve a disputa política mais imediata, já que agora todos sabemos quem serão os governantes de estados, como se configurarão Senado e Câmara Federal, quem será o Presidente da República. Isso traz certo alívio – além, claro, da pesada ressaca e do luto por parte de muitos – porque desmobiliza a bruta carga emocional empreendida em acompanhar, intervir, defender-se, refletir sobre o que vinha acontecendo, processo por demais dificultado pela guerra de informações e contrainformações, boa parte delas na forma de imagens em multiplicação.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Lutando para existir: Madge Syers e a patinação artística
Wagner Xavier de Camargo
Madge e Edgar Syers nos Jogos Olímpicos de 1908.


O esporte moderno em sua origem, definitivamente, não foi um “assunto para mulheres”. Criado pelo Barão de Coubertin e sua trupe em 1896, além de ser aristocrático, o esporte era um espaço de existência e hegemonia masculina. Não apenas o mundo masculino do esporte foi reeditado a partir dos valores da Antiguidade Clássica, como o lugar da mulher permanecia o mesmo: a elas eram relegadas as arquibancadas e, no máximo, práticas físicas que fossem “adequadas” ao seu sexo; porém, bem distantes das arenas esportivas competitivas. Na perspectiva de gênero, em que pese o mundo ter sido mexido pela primeira onda feminista ainda em fins do século XIX a favor do voto feminino, no recém-criado esporte tudo permanecia “mais do mesmo” para as mulheres.